sábado, 3 de julho de 2010

MAGIA

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Fotografia /Sentidamente
O dia clareava na sombra macia.
Circunstância, eternamente renovada…

Os aromas matinais,
Entraram no roseiral sorrindo.
A rosa vermelha, novelo tímido
de aveludadas pétalas,
foi-se abrindo…
E o fio de manhãzinha, ficou lindo!

O luar, em dobras finas,
embrulhou restos tardios.

Era o princípio e fim de tudo…

Oh! Quando a vida é mágica
Tem um sentido de coisa derradeira
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Jesus Varela

domingo, 27 de junho de 2010

BALANÇO

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Julian Schnabel - Portrait of. jacqueline, 1984 (pormenor)- Óleo, cerâmica e cola)
Colecção Berardo
Fotografia / Sentidamente

Tantas vezes me perdi sem labirinto.
Tantas outras, sem bússola me encontrei.
Tanto sim ouvi, nítido e distinto.
A morrer em não, porque os desgastei.

Confiei segredos, à tarde serena.
Devolveu-mos ela, espalhados no vento.
Fui regato fresco, cantando em avena
e fui leito seco, em caminhar lento.
Soprei mil pétalas em imaginário rosto,
desejando manhãs sem madrugadas.
Afastei as sombras rubras ao sol posto
e amei noites, de estrelas pontilhadas.
Carreguei sobre os ombros tanto peso!
Sucumbi aos arranhões de tanta garra!
Mas alcandorei castelos, inventei defeso.
Teci loucos sonhos de beleza rara…

Lutas que perdi… guerras que ganhei,
são ela por ela, igual o resultado.

Prende-me à vida, aquilo que não sei.
Esperança, num amanhã ignorado.

Jesus Varela


domingo, 20 de junho de 2010

NA PENUMBRA DA PARTIDA

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Fotografia / Semtidamente

Declaraçao

Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.

José Saramago

quinta-feira, 10 de junho de 2010

DESENCONTROS DE AMOR

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Fotografia / Setidamente

Colhi-vos para mim, molho de lírios!
Sentis, com que infinito carinho
vos transporto nos meus braços?

Chorais! Ou são gotas de orvalho?
Porque murchais, junto ao meu coração?
Suspirais pelo vazio do vosso chão?

Mas vede: não é por mal que o faço!
Só por amor vos carrego.
Não sentis o meu abraço?

Jesus Varela

sábado, 5 de junho de 2010

QUIMERA

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Fotografia / Sentidamente

Eu quis um violino no telhado
e uma arara exótica no banho.
Eu quis uma toalha de brocado
e um pavão real do meu tamanho.
Eu quis todos os cheiros do pecado
e toda a santidade que não tenho.
Eu quis uma pintura aos pés da cama
infinita de azul e perspectiva.
Eu quis ouvir a história de Mira Burana
na hora da orgia prometida.
Eu quis uma opulência de sultana
e a miséria amarga da mendiga.
Eu quis um vinho feito de medronho
de veneno, de beijos, de suspiros.
Eu quis a morte de viver dum sonho
eu quis a sorte de morrer dum tiro.
Eu quis chorar por ti durante o sono
eu quis ao acordar fugir contigo.
Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.
Por isso fiquei só, com o meu corpo


Rosa Lobato de Faria

sábado, 29 de maio de 2010

VIGÍLIA

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Fotografias / Sentidamente (O mesmo local, o mesmo findar do dia. Só alguns minutos, separam os dois registos).

Veio o entardecer! O Sol ao sair
para lá da linha do horizonte,
deixou ainda no rasto do seu ir,
nuvem doirada, em forma de bisonte…

Avoluma-se a solidão dos grandes nadas.
Guardados em espaços reduzidos.
Vêm de longe, risos e gargalhadas,
cruéis, ferir-me o silêncio dos ouvidos
e quebrar a paz das horas desejadas.

Depois do desgaste de tantas emoções,
resto, a retorcer as mãos fechadas.
Impotente, caminho aos tropeções,
querendo ainda, alisar cadeias enleadas
e escancarar todos os portões…

Do relógio, arrasto na noite a lentidão!
Insone, leio no balanço onde me afundo:
o lento gastar do tempo em progressão;
a inutilidade da passagem neste mundo.
Tudo o que foi promessa, hoje é negação!
Estou cansada de ruínas sem sentido!
Farta de lutar por tudo e não ter nada...

Novo dia, dentro em pouco já vem vindo.
Soçobro no fruir de mais uma madrugada!

Jesus Varela

sábado, 22 de maio de 2010

QUEM DERRAMOU OIRO PELO DIA?

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Fotografias / Sentidamente
Quem derramou oiro pelo dia?

Tão luminoso, docemente brilha!
Temperando de sentimento a nostalgia.
Encarnação em pura maravilha!...

Oiro nas árvores, desfolhadas, quase nuas.
No chão, em securas e dormências,
e nas pisadas, pedras das ruas,
despertando o embalo de cadências!

Oiro com brilho de acalentar sonho.
Encantamento tal, torna a alma leve!

Oiro roubado, a um qualquer dono.
Mas confiante, nada teme e nada deve!

Oiro a nimbar os sentimentos.
A ditar a paixão e o amor sereno.
Oiro derramado por breves momentos,
sobre toda a terra, num pairar ameno.

Oiro em que embrulho segredos
e sem cobiça, retenho e emalo.
Oiro macio, recolhido entre os dedos.
Afundado na alma, onde quero guardá-lo!

Jesus Varela

domingo, 16 de maio de 2010

NOSTALGIAS

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Fotografias / Sentidamente
Os meus velhos não têm idade!
Vejo-os com os olhos bem abertos,
À luz de ontem…
Não dum olhar gasto, enrugado, esquecido…
Os meus velhos nunca serão velhos!
Só assim, perdurará a criancinha que fui,
no conforto de sabê-los lá.

A casa não ficou velha!
Não derruiu um pouco em cada ano.
Não pode ser verdade!
Ainda vislumbro o sonho do seu reviver,
Por entre as brumas dum tempo cinzento…

Mesmo as lajes do cemitério,
Que escondem os queridos,
Não são reais… Não podem ser reais…
Eles estão ainda nos longínquos lugares,
Vivos de memórias…
Deixando um rasto inapagável.

Jesus Varela

sábado, 8 de maio de 2010

DELÍRIO

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Fotografias / Sentidamente
Desfolhei todas as rosas
do meu jardim
e ofereci ao vento
pétalas sem fim.
Como nacaradas pérolas
dum alado colar,
foram…
Gritando perfumes
ao espantado luar.


Perturbante ficou a noite.
Perdido o escuro de breu,
num registo tão longe do seu!
Discretamente foi-se embora.
Lesto era o tempo
para interrogar.

Cavalgando a rosada aurora,
um outro dia estava a chegar…

E eu, cansada da hora tardia,
vencida senti, os olhos fechar…

Jesus Varela

sexta-feira, 23 de abril de 2010

SENTIDO DO MEU IR

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Fotografia: Sentidamente

Vou! Secando lágrimas
....por entre choros e risos…

..............
bbbbbbVou! Acalmando medos,
....................a pintar negros de cores vivas…

...........................Vou! Gastando a vida,
................................A despertar de sonhos não sonhados…

Jesus Varela


Vou... Ausentar-me por uns tempos... Voltarei!

sábado, 17 de abril de 2010

É UM HOMEM QUEM O DIZ...

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Fotografia / Sentidamente
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A GRIPE E OS HOMENS

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisanas e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
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António Lobo Antunes
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(Dedico à Zé Portugal)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

SOLIDÃO

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Fotografías / Sentidamente

Gaivotas voaram em bando,
Intolerantes à minha aproximação.

....................Tal como os grãos de areia
....................Se me esgueiraram por entre os dedos.

......................................E a solidão, efervescente nada,
......................................Ressoa em mim, na hora apagada.

Jesus Varela
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

NOMEIO CONSTELAÇÕES...

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Fotografia / Sentidamente

NOMEIO CONSTELAÇÕES USO-AS
Para me guiarem no recinto das noites
Escavo corpos na flexibilidade das sombras
Atravesso a manhã e ponho a descoberto
A casa onde a infância secou

O olhar desce aos gestos inacabados
Satura-os de jovens lágrimas de resinas
E o susto da criança que fui reaviva
Um pouco de alegria no coração

AL Berto

Publicado em “ Vigílias” ; Assírio & Alvim

quinta-feira, 25 de março de 2010

OUTRAS VOZES...

Fotografia / Sentidamente

MENINO-POETA

Menino-Poeta, deixa-te de sonhos alados …
Menino-Poeta, vive a realidade do Mundo …
O tempo de Menino-Poeta, é areia recalcada
Em que se miram ilusões do mar profundo !

Agora,
Temos um Mar-Poeta, todo ondas de sonho parado
E as conchas da praia deserta, vivem entre rochedos
- Menino-Poeta que anda naufragado !

Azul-Poeta risonho … roubaste as estrelas ao Menino ?
Mas elas ao verem o Menino vagueando
Cobrem-no de luz … e vão soluçando !

Rochedo-Poeta … teu negrume é noite … escuridão
Mas as estrelinhas pensam no Menino-Poeta !
E vão devagarinho,

-----------------Dizer-lhe baixinho:
........................- Dá-me a tua mão!

… E o Mar-Poeta é Menino-Poeta
… E o Azul-Poeta é Menino-Poeta
… E o Rochedo-Poeta é Menino-Poeta !...


-----------------… E o Menino-Poeta rasga a noite escura
---------------- Pega em seus versos …

---------------- Cortados e recortados, e atira-os ao vento …
------------------------------------... e seu viver perdura !!!

------------------------------Eu queria ser o Menino-Poeta,
------------------------------E comer areia da praia deserta !!!

Sandra Zelly

sábado, 20 de março de 2010

PRIMAVERA

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Fotografia/Sentidamente

A chuva, deixou-se cair
em cortina oblíqua,
mostrou transparências
nos seus intervalos,
até que cúmplice, amainou…

O vento ao partir,
tamborilou teimoso sopro,
no tenro verde das folhagens…
Quando voltou,
era beijo de brisa.

O céu, de azul sorridente,
guardou de lado
o algodão branco
da doce nuvem
e deixou brilhar o sol…

Foi então que vi a flor!

Sinal de mais uma Primavera.

segunda-feira, 15 de março de 2010

OLHARES MEUS

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Fotografia / Sentidamente

RECADOS DA VIDA

A partida pode:

Estilhaçar a alegria duma vida,
num só momento.

Sobrepondo a noite ao dia,
escurecer o azul do céu.

Calar o canto aos passarinhos,
branquear cabelos,
arrefecer sorrisos…

As lágrimas embaciam as vidraças
e são de saudade…

Enquanto se mastiga e engole!
Porque a vida continua…

domingo, 7 de março de 2010

SENTIDAMENTE nasceu há um ano… só por isso, um poema com o mesmo nome.

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Fotografia/ Sentidamente

SENTIDAMENTE

Vou e volto
num lento apodrecer de folha seca!

Sentidamente…

Abro cadeias e desato nós.
Correntes e fitas uma a uma solto.
E fico, estandarte de entrega,
a ondular ao vento!

Sentidamente…
Abro as mãos, e deixo cair
sóis, cometas e demais astros,
que carrego comigo, e que ao luar
se reflectem nos parados lagos
da minha imaginação…

Dizem, romper dos pântanos
flores de aromas tristes…
Ainda as quero olhar…
Para além de todos os medos,
teimando na procura, insisto.

E sentidamente…

No desacerto da descrença
me pergunto... se alguma fui,
ou se nalguma existo.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

PROCESSO DE LOUCURA

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Fotografias / Sentidamente
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VERDADE!
O puro cristalino, pedra preciosa…

VONTADE!
Barro não moldado pronto à acção…

CRENÇA!
Cimento preciso, tempero, armadura…

AMOR!
Talvez sim, talvez não!
Esperança, segurança, dor, desespero…

DÚVIDA!
Ácida queima do puro…

INSEGURANÇA!
Imagem difusa em espelho partido…

SOLIDÃO!
Barco perdido no mar
ou lugar nunca encontrado…

CONFUSÃO!
O sim, o talvez e o não, tudo baralhado…

LOUCURA!
Nítido reflexo de imagem distorcida.
O já não ser na identificação perdida…

sábado, 20 de fevereiro de 2010

MEDITAÇÕES DE AGORA

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Fotografias / Sentidamente

(Quando o OUTONO se fez INVERNO)

VELHICE

Envolta no poente, a noite se adensou.
Cresce a escuridão, ausência avolumada,
deixando tão somente, um tempo que restou,
finas franjas, de renda inacabada…
Ténue luz brilha, de recônditos lugares.
Espera receosa, mas bem vinda,
à sombra de todos os vagares!...
Amalgama de esperanças, resta ainda!
Ansioso é o tactear na escuridão.
Conhecida insegurança, de todas as lonjuras!
Fortes tenazes, apertando o coração.
Singularidades, vizinhas de loucuras!

E os velhos caminhos relembrados,
nas longínquas galáxias já esquecidas,
enfados de quem ouve, idas e vindas,
aos secos reinos, dos afectos já levados!
Álgebra conhecida mas nunca invocada,
de simultânea soma em diminuição…
O gigante encontro, num pequeno nada!
O acrescentar um sim onde cabia um não!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

DA GAVETA ABERTA... (recuando aos anos 60)

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Fotografias / Sentidamente
POEMA DE AMOR

Quisera sentir a tua mão na minha!
Presa nos teus olhos, ficar a pairar!
E planando como pequena avezinha,
Guardar em mim, todas as estrelas e o luar!
Quisera só ver, o que teus olhos vissem,
chorar as tuas lágrimas, sofrer as tuas dores!
Que o teu coração e o meu sentissem,
em plena comunhão, todos os amores!
Quisera fundir nossas almas, num laço!
(Mesmo entre os corpos havendo distância)
Num grande amor, para além do espaço!
Ausência negada em comum errância…
Quisera que o teu calor, também fosse o meu!
Que as tuas horas passassem comigo.
Que dividida, entre a terra e o céu,
sempre a vida fosse, uma dança contigo…
E num dia longínquo, os olhos fechasse,
primeiro do que os teus, num sono profundo!
Que das nossas recordações, comigo levasse,
Nocturnos de Chopin, ao abandonar o mundo…

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ABRINDO A GAVETA ...dos velhos poemas

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Fotografia / Sentidamente - (Escultura de João Limpinho)

ROMANCE

Romance, é dar as mãos
e caminhar na tarde calma.

Romance, é olhar e só ver o outro,
mesmo perante uma multidão.

Romance, é sentir no frémito dum beijo,
a plenitude da vida.

Romance, é materializar na carícia,
a sublimação do amor.

Romance, é caber num momento,
o infinito de todas as alegrias.

Romance, é acreditando no agora,
Sonhar a felicidade para sempre.

Romance, é o bálsamo salutar
que ameniza feridas latentes.

Romance, é ver no fumo,
A perenidade da árvore.

Romance, é o todo universal
em harmonia com a natureza.

Romance, é o mais belo,
mesmo se fugaz, momento da vida! ...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

TALVEZ

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Fotografia / Sentidamente
Os olhos, gastos de repetições,
já não querem ver…

Os gestos, há muito esquecidos,
perderam o sentido do voo…

O bom, de tudo o que foi vivido,
cabe numa mão fechada…

Os passos cansados dos trilhos,
apelam ao descanso…

Réstia do gosto pela vida,
brilha numa luz indefinida!

Talvez ainda hoje
se abra uma janela!

Fantasio ainda?
Preciso sonhar…

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

EM NOME DE UMA AMIZADE QUE ATRAVESSOU O TEMPO...

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Fotografias/ Sentidamente (Tomar, Convento de Cristo)

(Dedico a publicação de hoje à minha querida amiga Luisinha)

AURORA BOREAL

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
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António Gedeão

domingo, 24 de janeiro de 2010

JARDIM DE INVERNO

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Fotografias/sentidamente

Hoje, dia de chuvas e de ventos,
há pânico total neste jardim…
Flores, se perfeitas noutros tempos,
são agora farrapos de cetim.
As aves silenciaram o cantar
numa inexistência simulada.
Escondidas, não se atrevem a voar,
em gesto de prudência adivinhada.

Pequenos seres estão escondidos,
presenças não vistas mas sabidas.
Num utilizar arguto dos sentidos,
preservam no seguro as suas vidas.
Nos empedrados, folhas amarelas,
correm danças tristes e forçadas.
Brilham nalguns ramos, como velas,
gotas de chuva, à luz alumiadas.

Corre um ondular descendente,
no lago, habitualmente tão parado.
Marginais juncos, abanam docemente,
num murmurar triste e desolado.
Altas folhagens tremem alterosas.
Ou protestam sussurros plangentes.
São longas conversas lamentosas,
ora iradas, ora calmas e dolentes.

O sol não brilha mas algo é luminoso,
nesta hora subtil de fim de dia.
Emprestando um fascínio poderoso,
faz do simples e natural, pura magia.
Fico suspensa, receosa, deliciada…
Num confundido mas real enlevo.
Indecisa, sinto-me se partir, culpada,
pelo encanto que quebro, mas não devo
!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

PERDIDA NO TEMPO

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Fotografia / Sentidamente

Fico na manhã, entre o tudo e o nada,
entre o amargo do ser e o doce do sonhar!
Como fiquei, ao alvorecer da madrugada,
suspensa, entre o esquecer e o lembrar!
Partiram as estrelas, longínquas sentinelas!
Acorda a natureza, num dia abençoado!
E mesmo ali, debaixo das janelas,
cheira doce, o rosmaninho orvalhado!
Se fui com a noite, regresso com o dia,
duma jornada, a retornar sem fim.
Perturbada, entre a tristeza e alegria,
agradada, do cheiro da rosa e do jasmim…
Dicotomia, neste viver, sempre dividida!
Num protelar constante do sentir.
Como folha, avanço nesta vida,
empurrada por ventos de ir e vir.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

MEMÓRIAS

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Fotografias / Sentidamente

ADEUS A UMA AMIGA
(à Hortense Madeira)

Um dia, foste vida, foste cor!
Sonhaste, viveste, sofreste e choraste!
Deste filhos ao mundo, foste amor!
Quantos e quantos sonhos embalaste!
Foste jovem, bonita, esperançosa!
Pelos teus braços, construíste a vida!
Sempre tiveste o encanto duma rosa.
Semeavas a bondade e eras querida!
Tudo passou, só restam raízes agora,
A segurar as árvores dos teus frutos…
Mas não ficaste… Chegou a tua hora!
Partiste! E aqui, deixaste lutos.
O tempo, sempre, sempre continua!
a ondular as águas do teu Tejo.
O barco que te trazia, ainda flutua.
Continua lá! Ainda o vejo!
Tu não vens nele, não mais virás!
O “ai” da tua vida já passou.
São outros os reinos onde andarás.
De ti, só a saudade nos restou!
No cais, onde fiquei e sempre fico,
quando alguém parte sem adeus,
talvez sejam cinzas tuas, o que sinto,
insistentes, a marejar os olhos meus.
Cinzas! O que do teu corpo sobrou
e sobre esta nossa terra existe ainda.
Para além, duma doce lembrança que restou,
da pessoa que foste!... E eras linda!

domingo, 10 de janeiro de 2010

DESÂNIMO - (O momento passou… Ficou o registo).

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Fotografias / Sentidamente

CAUSA PERDIDA

Já nada tem importância!
Os projectos acabaram.
Só muito longe, à distância,
as recordações ficaram.
Não vale a pena investir!
O futuro é uma marcha,
num crepúsculo a cair,
em vereda que se não acha.
Nuvem, ou manto caído,
escuro como um tornado.
Caminhada num sentido,
que só leva ao “outro” lado.

Para dar a quem precisa,
de meu, já não tenho nada.
Sou uma mancha imprecisa,
em paisagem inacabada.
Sou uma árvore ressequida,
pelos raios da trovoada.
Sou terra que não produz,
de pedregulhos semeada.
Sou um deserto sem luz.
uma quimera queimada.
Sou madeira quase ardida,
em cinzas, nesta fogueira.
Sou carvão que já foi vida,
em negrume de carvoeira.
Sou uma tão triste valsa,
que não se ousa dançar.
Sou despojos de barcaça,
afundada em alto mar.
Sou a boneca esquecida,
numa longa brincadeira.
Sou Outono duma vida.

Sem a esperança derradeira,
sou vontade que apodrece.

Indiferente ao desespero:
sou ar que não me apetece,
sou vida que já não quero.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

VOLTO SEMPRE AQUI

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Fotografias / Sentidamente

Uma e outra vez, volto sempre aqui!
Saudosa, do que foi e não guardei.
Procurando encontrar, porque perdi,
o longínquo tempo, que por cá deixei…

Na aridez, no ar puro, no vento irado,
por entre imaginada seara a ondular,
vislumbro, entes queridos do passado,
que sempre, aqui venho visitar!

Visita vã! Quem mos prometesse mentiria!
Só eu resto! Corpo e alma a definhar.
Morrendo um pouco em cada dia,
como falésia, descendo até ao mar…