sábado, 24 de julho de 2010

AS CORES

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Fotografias / Sentidamente

As cores,
em claros e escuros
e em idas e voltas,
deixam rasto
no fluir dos meus sentimentos:
Pelas mais coloridas,
captadas das flores,
Ficam os mais gratificantes,
a clamar de impotência,
ao lado dos que vestidos
de negros nocturnos,
se instalaram e riem
em prepotentes gargalhadas.

Jesus Varela


domingo, 18 de julho de 2010

OS NOSSOS “OUTROS”

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Fotografia / Sentidamente

Que bom!
O sabor duns braços abertos,
sempre à nossa espera,
Na longa viagem ou na breve ausência.

Que bom!
A certeza dum sorriso solidário,
quando o nosso sol se toldou
à sombra de nuvem negra e pesada,
ou dum sorriso cúmplice, repleto de dádiva,
no momento da carência adivinhada.

Que bom!
Sentirmos a presença do consolo,
mesmo silencioso, nas horas desesperadas,
quando recolhemos pedaços dos cristais,
deixados estilhaçar por incúria!

Que bom!
Estarmos juntos na festa da vida,
quando viver é beber a taça transbordante
de elixir, na alegria e na felicidade!

Que bom!
Coexistirmos,
na reciprocidade do entendimento,
da vivência partilhada e do amor!

Também queria estar lá.

Jesus Varela

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ATÉ QUE UM DIA

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Fotografias / Sentidamente

Meus versos eram rosas, lírios, heras,
borboletas, regatos, cotovias
cantando suas doces melodias,
anjos, sereias, ninfas e quimeras.

Meus versos eram pombas entre as feras
e, na festa das horas e dos dias,
ia dançando penas e alegrias
e o ano tinha quatro primaveras.

E a festa continua... é também festa
o cardo e a urze, o tojo, a murta, a giesta,
a chuva no beiral, o vento Norte,
o gosto a mar, a lágrimas, a sal,

até que um dia a vida, a bem ou mal,
exausta de cantar me empreste à morte."

Fernanda de Castro, in «E Eu, Saudosa, Saudosa»
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sábado, 3 de julho de 2010

MAGIA

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Fotografia /Sentidamente
O dia clareava na sombra macia.
Circunstância, eternamente renovada…

Os aromas matinais,
Entraram no roseiral sorrindo.
A rosa vermelha, novelo tímido
de aveludadas pétalas,
foi-se abrindo…
E o fio de manhãzinha, ficou lindo!

O luar, em dobras finas,
embrulhou restos tardios.

Era o princípio e fim de tudo…

Oh! Quando a vida é mágica
Tem um sentido de coisa derradeira
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Jesus Varela

domingo, 27 de junho de 2010

BALANÇO

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Julian Schnabel - Portrait of. jacqueline, 1984 (pormenor)- Óleo, cerâmica e cola)
Colecção Berardo
Fotografia / Sentidamente

Tantas vezes me perdi sem labirinto.
Tantas outras, sem bússola me encontrei.
Tanto sim ouvi, nítido e distinto.
A morrer em não, porque os desgastei.

Confiei segredos, à tarde serena.
Devolveu-mos ela, espalhados no vento.
Fui regato fresco, cantando em avena
e fui leito seco, em caminhar lento.
Soprei mil pétalas em imaginário rosto,
desejando manhãs sem madrugadas.
Afastei as sombras rubras ao sol posto
e amei noites, de estrelas pontilhadas.
Carreguei sobre os ombros tanto peso!
Sucumbi aos arranhões de tanta garra!
Mas alcandorei castelos, inventei defeso.
Teci loucos sonhos de beleza rara…

Lutas que perdi… guerras que ganhei,
são ela por ela, igual o resultado.

Prende-me à vida, aquilo que não sei.
Esperança, num amanhã ignorado.

Jesus Varela


domingo, 20 de junho de 2010

NA PENUMBRA DA PARTIDA

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Fotografia / Semtidamente

Declaraçao

Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.

José Saramago

quinta-feira, 10 de junho de 2010

DESENCONTROS DE AMOR

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Fotografia / Setidamente

Colhi-vos para mim, molho de lírios!
Sentis, com que infinito carinho
vos transporto nos meus braços?

Chorais! Ou são gotas de orvalho?
Porque murchais, junto ao meu coração?
Suspirais pelo vazio do vosso chão?

Mas vede: não é por mal que o faço!
Só por amor vos carrego.
Não sentis o meu abraço?

Jesus Varela

sábado, 5 de junho de 2010

QUIMERA

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Fotografia / Sentidamente

Eu quis um violino no telhado
e uma arara exótica no banho.
Eu quis uma toalha de brocado
e um pavão real do meu tamanho.
Eu quis todos os cheiros do pecado
e toda a santidade que não tenho.
Eu quis uma pintura aos pés da cama
infinita de azul e perspectiva.
Eu quis ouvir a história de Mira Burana
na hora da orgia prometida.
Eu quis uma opulência de sultana
e a miséria amarga da mendiga.
Eu quis um vinho feito de medronho
de veneno, de beijos, de suspiros.
Eu quis a morte de viver dum sonho
eu quis a sorte de morrer dum tiro.
Eu quis chorar por ti durante o sono
eu quis ao acordar fugir contigo.
Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.
Por isso fiquei só, com o meu corpo


Rosa Lobato de Faria

sábado, 29 de maio de 2010

VIGÍLIA

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Fotografias / Sentidamente (O mesmo local, o mesmo findar do dia. Só alguns minutos, separam os dois registos).

Veio o entardecer! O Sol ao sair
para lá da linha do horizonte,
deixou ainda no rasto do seu ir,
nuvem doirada, em forma de bisonte…

Avoluma-se a solidão dos grandes nadas.
Guardados em espaços reduzidos.
Vêm de longe, risos e gargalhadas,
cruéis, ferir-me o silêncio dos ouvidos
e quebrar a paz das horas desejadas.

Depois do desgaste de tantas emoções,
resto, a retorcer as mãos fechadas.
Impotente, caminho aos tropeções,
querendo ainda, alisar cadeias enleadas
e escancarar todos os portões…

Do relógio, arrasto na noite a lentidão!
Insone, leio no balanço onde me afundo:
o lento gastar do tempo em progressão;
a inutilidade da passagem neste mundo.
Tudo o que foi promessa, hoje é negação!
Estou cansada de ruínas sem sentido!
Farta de lutar por tudo e não ter nada...

Novo dia, dentro em pouco já vem vindo.
Soçobro no fruir de mais uma madrugada!

Jesus Varela

sábado, 22 de maio de 2010

QUEM DERRAMOU OIRO PELO DIA?

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Fotografias / Sentidamente
Quem derramou oiro pelo dia?

Tão luminoso, docemente brilha!
Temperando de sentimento a nostalgia.
Encarnação em pura maravilha!...

Oiro nas árvores, desfolhadas, quase nuas.
No chão, em securas e dormências,
e nas pisadas, pedras das ruas,
despertando o embalo de cadências!

Oiro com brilho de acalentar sonho.
Encantamento tal, torna a alma leve!

Oiro roubado, a um qualquer dono.
Mas confiante, nada teme e nada deve!

Oiro a nimbar os sentimentos.
A ditar a paixão e o amor sereno.
Oiro derramado por breves momentos,
sobre toda a terra, num pairar ameno.

Oiro em que embrulho segredos
e sem cobiça, retenho e emalo.
Oiro macio, recolhido entre os dedos.
Afundado na alma, onde quero guardá-lo!

Jesus Varela

domingo, 16 de maio de 2010

NOSTALGIAS

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Fotografias / Sentidamente
Os meus velhos não têm idade!
Vejo-os com os olhos bem abertos,
À luz de ontem…
Não dum olhar gasto, enrugado, esquecido…
Os meus velhos nunca serão velhos!
Só assim, perdurará a criancinha que fui,
no conforto de sabê-los lá.

A casa não ficou velha!
Não derruiu um pouco em cada ano.
Não pode ser verdade!
Ainda vislumbro o sonho do seu reviver,
Por entre as brumas dum tempo cinzento…

Mesmo as lajes do cemitério,
Que escondem os queridos,
Não são reais… Não podem ser reais…
Eles estão ainda nos longínquos lugares,
Vivos de memórias…
Deixando um rasto inapagável.

Jesus Varela

sábado, 8 de maio de 2010

DELÍRIO

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Fotografias / Sentidamente
Desfolhei todas as rosas
do meu jardim
e ofereci ao vento
pétalas sem fim.
Como nacaradas pérolas
dum alado colar,
foram…
Gritando perfumes
ao espantado luar.


Perturbante ficou a noite.
Perdido o escuro de breu,
num registo tão longe do seu!
Discretamente foi-se embora.
Lesto era o tempo
para interrogar.

Cavalgando a rosada aurora,
um outro dia estava a chegar…

E eu, cansada da hora tardia,
vencida senti, os olhos fechar…

Jesus Varela

sexta-feira, 23 de abril de 2010

SENTIDO DO MEU IR

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Fotografia: Sentidamente

Vou! Secando lágrimas
....por entre choros e risos…

..............
bbbbbbVou! Acalmando medos,
....................a pintar negros de cores vivas…

...........................Vou! Gastando a vida,
................................A despertar de sonhos não sonhados…

Jesus Varela


Vou... Ausentar-me por uns tempos... Voltarei!

sábado, 17 de abril de 2010

É UM HOMEM QUEM O DIZ...

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Fotografia / Sentidamente
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A GRIPE E OS HOMENS

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisanas e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
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António Lobo Antunes
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(Dedico à Zé Portugal)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

SOLIDÃO

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Fotografías / Sentidamente

Gaivotas voaram em bando,
Intolerantes à minha aproximação.

....................Tal como os grãos de areia
....................Se me esgueiraram por entre os dedos.

......................................E a solidão, efervescente nada,
......................................Ressoa em mim, na hora apagada.

Jesus Varela
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quinta-feira, 1 de abril de 2010

NOMEIO CONSTELAÇÕES...

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Fotografia / Sentidamente

NOMEIO CONSTELAÇÕES USO-AS
Para me guiarem no recinto das noites
Escavo corpos na flexibilidade das sombras
Atravesso a manhã e ponho a descoberto
A casa onde a infância secou

O olhar desce aos gestos inacabados
Satura-os de jovens lágrimas de resinas
E o susto da criança que fui reaviva
Um pouco de alegria no coração

AL Berto

Publicado em “ Vigílias” ; Assírio & Alvim

quinta-feira, 25 de março de 2010

OUTRAS VOZES...

Fotografia / Sentidamente

MENINO-POETA

Menino-Poeta, deixa-te de sonhos alados …
Menino-Poeta, vive a realidade do Mundo …
O tempo de Menino-Poeta, é areia recalcada
Em que se miram ilusões do mar profundo !

Agora,
Temos um Mar-Poeta, todo ondas de sonho parado
E as conchas da praia deserta, vivem entre rochedos
- Menino-Poeta que anda naufragado !

Azul-Poeta risonho … roubaste as estrelas ao Menino ?
Mas elas ao verem o Menino vagueando
Cobrem-no de luz … e vão soluçando !

Rochedo-Poeta … teu negrume é noite … escuridão
Mas as estrelinhas pensam no Menino-Poeta !
E vão devagarinho,

-----------------Dizer-lhe baixinho:
........................- Dá-me a tua mão!

… E o Mar-Poeta é Menino-Poeta
… E o Azul-Poeta é Menino-Poeta
… E o Rochedo-Poeta é Menino-Poeta !...


-----------------… E o Menino-Poeta rasga a noite escura
---------------- Pega em seus versos …

---------------- Cortados e recortados, e atira-os ao vento …
------------------------------------... e seu viver perdura !!!

------------------------------Eu queria ser o Menino-Poeta,
------------------------------E comer areia da praia deserta !!!

Sandra Zelly

sábado, 20 de março de 2010

PRIMAVERA

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Fotografia/Sentidamente

A chuva, deixou-se cair
em cortina oblíqua,
mostrou transparências
nos seus intervalos,
até que cúmplice, amainou…

O vento ao partir,
tamborilou teimoso sopro,
no tenro verde das folhagens…
Quando voltou,
era beijo de brisa.

O céu, de azul sorridente,
guardou de lado
o algodão branco
da doce nuvem
e deixou brilhar o sol…

Foi então que vi a flor!

Sinal de mais uma Primavera.

segunda-feira, 15 de março de 2010

OLHARES MEUS

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Fotografia / Sentidamente

RECADOS DA VIDA

A partida pode:

Estilhaçar a alegria duma vida,
num só momento.

Sobrepondo a noite ao dia,
escurecer o azul do céu.

Calar o canto aos passarinhos,
branquear cabelos,
arrefecer sorrisos…

As lágrimas embaciam as vidraças
e são de saudade…

Enquanto se mastiga e engole!
Porque a vida continua…

domingo, 7 de março de 2010

SENTIDAMENTE nasceu há um ano… só por isso, um poema com o mesmo nome.

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Fotografia/ Sentidamente

SENTIDAMENTE

Vou e volto
num lento apodrecer de folha seca!

Sentidamente…

Abro cadeias e desato nós.
Correntes e fitas uma a uma solto.
E fico, estandarte de entrega,
a ondular ao vento!

Sentidamente…
Abro as mãos, e deixo cair
sóis, cometas e demais astros,
que carrego comigo, e que ao luar
se reflectem nos parados lagos
da minha imaginação…

Dizem, romper dos pântanos
flores de aromas tristes…
Ainda as quero olhar…
Para além de todos os medos,
teimando na procura, insisto.

E sentidamente…

No desacerto da descrença
me pergunto... se alguma fui,
ou se nalguma existo.